CHAMADA TEMÁTICA N.º 56: A Companhia de Jesus e a tradução dos saberes e conhecimentos indígenas no contexto colonial americano. Séculos XVI e XVIII

2026-01-06

CHAMADA TEMÁTICA N.º 56: A Companhia de Jesus e a tradução dos saberes e conhecimentos indígenas no contexto colonial americano. Séculos XVI e XVIII

 

RESUMO

Os estudos acerca da atuação da Companhia de Jesus nos antigos impérios ibéricos têm constituído um dos mais significativos campos da historiografia colonial e, ao longo dos últimos decênios, essa produção tem evidenciado um forte caráter de renovação. Diante disso, o presente Dossiê visa reunir trabalhos que permitam resgatar o rol ativo dos indígenas na formulação de escritos, de natureza científica ou de conteúdo considerado significativo para o avanço das Ciências na Europa dos séculos XVI, XVII e XVIII. Dentro da análise esperada, desejamos contar com pesquisas de caráter interdisciplinar, podendo abarcar temporalidades e realidades múltiplas, que tornem possível debater em que medida a Companhia de Jesus, assim como outras ordens religiosas, apresentou os cânones do que deveria ser considerado ciência e, por conseguinte, invisibilizou os indígenas no que concerne à legitimidade de uma produção intelectual que partindo da mística, neste caso inaciana, esforçava-se por traduzir saberes e conhecimentos ameríndios para o grande público europeu.

 

EMENTA - JUSTIFICATIVA DA RELEVÂNCIA DO TEMA

A historiografia que aborda a ação missionária dos jesuítas nas Américas, seja na porção administrada pela coroa da Espanha ou nos territórios correspondentes à assistência de Portugal, assim como da França, tem debatido o modo de os jesuítas produzirem um conhecimento científico focado nos aspectos que hoje chamaríamos de “naturais”: um saber que mostrava, em parte, a racionalidade dos indígenas, dado que, como assumimos a partir de variadas pesquisas históricas, etno-históricas ou de recorte antropológico, os indígenas teriam um lugar de destaque na elaboração de informes e crônicas a partir de um quadro de informantes missionários. Um trabalho que nem sempre – pelo menos até agora – foi identificado de modo particular. Isto é, não conhecemos os nomes e trajetórias dos indígenas, sejam eles mulheres, homens e, por que não, crianças, que ajudaram os inacianos na construção de conhecimento. No entanto, pensamos que esta proposição continua a invisibilizar os indígenas, com o seu rol ativo na comunicação dos saberes e conhecimentos para o Velho Mundo, pela pena dos jesuítas mediante uma escrita que, partindo da mística inaciana, tentava reflexionar sobre as formas em que os indígenas entendiam o seu mundo natural para, logo, traduzir os saberes e conhecimentos nativos tirando deles todo o que pudesse ser considerado como parte da esfera mágico-religiosa. Por tanto, neste processo de tradução dos sentidos dos saberes e conhecimentos indígenas assistimos a uma filtragem da religiosidade nativa; operação historiográfica que parte de colocar em destaque a labor dos missionários e claro, aquela força interior que podemos identificar como parte da mística própria dos jesuítas.

Para continuar debatendo a participação da Companhia de Jesus na produção de conhecimento a nível global, a fim de analisar o caráter dos ameríndios e as suas manifestações intelectuais – embora, algumas vezes, elas tivessem sido desacreditadas pelos irmãos de Santo Inácio –, é necessário resgatar a agência indígena na formulação dos saberes e conhecimentos que circulavam na Europa, sobretudo durante os séculos XVII e XVIII. É por esse motivo que consideramos mais apropriado refletir sobre o rol da tradução do conhecimento indígena desenvolvida pelos jesuítas, com o consequente apagamento dos informantes nativos, para uma matriz epistemológica europeia. Nessa tradução dos saberes e conhecimentos ameríndios, foi operacionalizada uma redução dos sentidos que sustentavam – e ainda podem ser considerados como as bases do saber ameríndio – os procedimentos lógicos que permitiam aos indígenas apresentar explicações sobre o Mundo e como interagir com ele a partir de um diálogo de intencionalidades que tornava possível a vida. Por tanto neste Dossiê convidamos para a sua apresentação, artigos originais que reflitam sobre alguns destes aspectos considerando, centralmente, o vinculo entre saber e conhecimentos como formas próprias da espiritualidade nativa assim como própria dos religiosos.

 

PRAZO DE SUBMISSÃO DE ARTIGOS
30/4/2026

 

BIBLIOGRAFIA

AGNOLIN, Adone. Jesuítas e selvagens. A negociação da fé no encontro catequético americano-tupi (século XVI-XVII). São Paulo: Humanitas, FAPESP, 2007.

FLECK, Eliane Cristina Deckmann. Entre a caridade e a ciência: a prática missionária e científica da Companhia de Jesus. São Leopoldo; Editora Unisinos: Oikos, 2014

MECENAS, Ane Luíse Silva. O trato da perpetua tormenta: a conversão Kiriri nos sertões de dentro da América portuguesa. Aracaju: Edise, 2020.

MILLONES FIGUEROA, Luis; Domingo LEDESMA, El saber de los jesuitas, historias naturales y Nuevo Mundo. Vervuert – Frankfurt; Iberoamérica – Madrid. 2005.

POMPA, Cristina. A religião como tradução. missionários, Tupi e “Tapuia” no Brasil colonial. Bauru: EDUSC, 2003.

VALLE, Ivonne del. Escribiendo desde los márgenes: colonialismo y jesuítas en el siglo XVII. México: Siglo XXI, 2009.

ZERON, Carlos Alberto de Moura Ribeiro. A Companhia de Jesus e a escravidão no processo de formação da sociedade colonial (Brasil, século XVII). São Paulo: Edusp, 2011.

 

PROPONENTES

Ane Luise Silva Mecenas Santos
Doutora em História – UFRN
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5648-7060
LATTES: http://lattes.cnpq.br/5086611569752849
E-mail: ane.mecenas@ufrn.br

Carlos Daniel Paz
Doutor em História - Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires, UNCPBA, Argentina
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2297-3458
LATTES: http://lattes.cnpq.br/1491492918155227
E-MAIL: ychoalay@gmail.com