CHAMADA TEMÁTICA N.º 55: Fé e festas negras e afro-indígenas

2026-01-06

CHAMADA TEMÁTICA N.º 55: Fé e festas negras e afro-indígenas

 

APRESENTAÇÃO

O estudo das festas negras e afro-indígenas na perspectiva histórica constitui um campo privilegiado para a compreensão aprofundada sobre os costumes, hábitos e crenças das camadas populares, bem como das formas de resistências, conflitos e das disputas existentes para a manutenção e continuidade de suas práticas culturais. Além disso, destaca-se o vínculo fundamental entre as festas e as manifestações de fé e religiosidades, evidenciando a relação intrínseca entre os festejos e as experiências religiosas e sagradas nos diversos contextos sociais e históricos.

As pesquisas empreendidas por folcloristas desde as últimas décadas do século XIX, passando pela Missão de Pesquisas Folclóricas, liderada por Mário de Andrade nos anos 1930 e pelos estudos de Edison Carneiro entre as décadas de 1940 e 1960, apenas para citar alguns exemplos, demonstram a quase inseparabilidade entre as práticas culturais consideradas populares e a religiosidade. Essas investigações, assim como as pesquisas acadêmicas que vêm sendo realizadas atualmente, revelam que muitos espaços festivos criados e vivenciados pelos grupos ditos populares eram (e continuam sendo) locais relevantes de compartilhamento de experiências, de luta, de sociabilidade, de solidariedade, de busca por cidadania e, também, de expressão da fé e devoção.

Concordamos com Martha Abreu e Matthias Assunção que discutem em importante artigo a abrangência dos conceitos sobre cultura popular e cultura negra e afirmam que o conceito de “cultura popular não daria mais conta de outros desafios políticos colocados pelos movimentos culturais de combate ao racismo e da naturalizada ideia de um Brasil mestiço, integrado racial e culturalmente. (...).” Por isso, atestam os autores que “o conceito de cultura negra, ao lado de cultura afro-brasileira, passou a cumprir o papel de não apenas enfatizar a ‘contribuição’ africana, mas de argumentar que esta havia sido dominante para a maioria das manifestações consideradas ‘tipicamente brasileiras’, como o samba ou a capoeira.” (ABREU, ASSUNÇÃO, 2018, p. 24) Sobre a a presença de elementos que remetem às culturas indígenas em uma quantidade significativa de expressões populares, observa-se, como afirma Maria Acseraldi, que mesmo aquelas marcadas por uma africanidade, “revelam a complexidade da relação entre indígenas e negros, para além da sua relação com os brancos” (ACSERALDI, 2020. p. 20). Nesse sentido, compreendê-las como festas e expressões culturais afro-indígenas, “mais do que determinar possíveis origens indígenas, cabe reconhecer intensas presenças, mesmo que escondidas sob o signo da invisibilidade" (ACSERALDI, 2020. p. 35).

Desse modo, propomos que esse dossiê apresente reflexões que tratem especialmente das imbricadas relações entre a fé nos sagrados e as festas negras e afro-indígenas, consideradas centrais para as pesquisas que abarcam o que consideramos atualmente parte constituinte das culturas negras no Brasil. Além disso, buscamos compreender quais os impactos das leis 10.639/2003 e 11.645/2008 - que tornaram obrigatórios o ensino de histórias africanas, afro-brasileiras e indígenas nas instituições de ensino do país - relacionam-se com a temática proposta neste dossiê, especialmente no que tange às discussões sobre o racismo e a intolerância religiosa dentro e fora da esfera festiva comunitária.

Nesse sentido, este dossiê temático convida pesquisadores e pesquisadoras dedicados ao estudo das festas negras e afro-indígenas em diferentes contextos e a refletirem sobre as relações entre os festejos e suas devoções, assim como contempla as discussões relativas à relação entre religião e identidades coletivas, religiosidades, cultura negra e políticas públicas, expressões artísticas, história oral e religiosidades; poder, resistência e fé; debates sobre o patrimônio cultural, memória e manifestações religiosas; religião e cultura nas mídias e tecnologias; gênero, sexualidade e religiosidade; movimentos sociais, religiosidade e cultura negra, além da história pública.

 

PRAZO DE SUBMISSÃO DE ARTIGOS
20/2/2026

 

BIBLIOGRAFIA

ABREU, Martha; ASSUNÇÃO, Matthias. “Da cultura popular à cultura negra”. In: ABREU, M.; XAVIER, G.; MONTEIRO, L.; BRASIL, E. Cultura negra. Novos desafios para os historiadores. Vol.1 Niterói: Eduff, 2018.

ACSERALDI, Maria. O Caboclinho como afeto: a presença indígena nas danças populares e tradicionais brasileiras. Revista Hawò, v.1, 2020.

BRASILEIRO, Jeremias. Sincretismo religioso não. Coexistência religiosa e ancestral sim. Uberlândia, Subsolo, 2023.

MARTINS, C.; MONTEIRO, Lívia Nascimento. Pelo direito de festejar: o encontro entre os Bumba Meu Boi, as Congadas de Minas e os patrimônios culturais afro-brasileiros. Patrimônio e Memória. (UNESP), v. 18, 2022.

MATTOS, Hebe; ABREU, M. Remanescentes das comunidades dos quilombos: memória do cativeiro, patrimônio cultural e direito à reparação. Revista Habitus, Goiania, 2009.

OLIVA, Anderson Ribeiro; CONCEIÇÃO, Maria T. A construção de epistemologias insubmissas e os caminhos possíveis para uma educação antirracista e anticolonial: reflexões sobre os 20 anos da Lei 10.639/2003. Revista História Hoje. São Paulo, v. 12, nº 25 2023.

PEREIRA, Amilcar Araujo. “Por uma autêntica democracia racial!”: os movimentos negros nas escolas e nos currículos de história. Revista História Hoje, v. 1, nº 1, 2012

 

PROPONENTES

Carolina Martins
Doutora em História pela UFF, professora adjunta na Universidade Federal do Maranhão - Campus Pinheiro e professora permanente do Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade - PGCULT/UFMA. Participa do GT Emancipações e Pós-abolição da ANPUH, coordena o GPPeri/UFMA - Grupo de Pesquisa Memória e História Social na Amazônia Maranhense e é membro do GPMINA/UFMA - Grupo de Pesquisa Religião e Cultura Popular.
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3572-4773
Lattes: https://lattes.cnpq.br/5466532892615835

Lívia Nascimento Monteiro
Doutora em História pela UFF, professora adjunta na UNIFAL-MG (Universidade Federal de Alfenas) e professora colaboradora do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de História (ProfHistória - UFF). Participa do GT Emancipações e Pós-Abolição da Anpuh e do grupo de pesquisa “Emancipações e pós-Abolição em Minas Gerais.
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4113-6521
Lattes: http://lattes.cnpq.br/0668067809335427