Norma e estigma: autismo, discursos capacitistas e a escola como território de transformação simbólica
DOI:
https://doi.org/10.18764/2178-2229v33n2e27785Palavras-chave:
Autismo, capacitismo, estigma, representações sociais, educação inclusivaResumo
O presente artigo discute como discursos capacitistas operam na produção de estigmas sobre o autismo, analisando-os como dispositivos simbólicos que reduzem identidades e sustentam exclusões sociais. O objetivo do trabalho é compreender como falas recorrentes no cotidiano social funcionam como representações sociais que deterioram a dignidade de pessoas autistas, com o propósito de refletir sobre o papel da escola como território capaz de transformar esses discursos em narrativas de reconhecimento. Do ponto de vista metodológico, trata-se de um estudo qualitativo de natureza teórico-analítica, fundamentado na análise discursiva crítica a partir de enunciados recorrentes em interações sociais e mídias digitais, sem coleta empírica sistemática, e ancorado em referenciais interdisciplinares da psicologia social, da linguística, da sociologia, da filosofia e da teologia. A análise organiza as falas capacitistas em seis categorias — negação da condição, redução da identidade, infantilização, estereótipos rígidos, romantização e espiritualização —, evidenciando como a linguagem se torna instrumento de exclusão. A reflexão aponta que tais enunciados não são isolados, mas se constituem práticas discursivas socialmente partilhadas de deslegitimação da identidade da pessoa autista. Ao mesmo tempo, destaca-se que a escola pode assumir papel central de desconstrução da violência simbólica: práticas pedagógicas críticas, dialógicas e inclusivas podem ressignificar discursos, valorizar modos diversos de comunicação e afirmar a neurodiversidade como expressão legítima da condição humana, sem invisibilizar tensões ligadas a níveis de suporte e desigualdades sociais. Conclui-se que enfrentar o capacitismo requer intervir nos discursos e nas práticas institucionais.
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