O gosto como uma espécie de sensus communis
DOI:
https://doi.org/10.18764/2966-1196v2n2e28361Palavras-chave:
Sensus communis, Juízo de gosto, Comunidade, Faculdade de julgarResumo
Nosso objetivo é mostrar como a ideia de sensus communis, que aparece no §40 da Crítica da faculdade de julgar, obra publicada por Immanuel Kant em 1790, pretende funcionar como uma transição de um sentimento individual para a constituição de uma comunidade, e a consequente importância dessa passagem para a universalidade do juízo de gosto, bem como para o projeto crítico-transcendental. A tentativa argumentativa no §40 é associar um sentido de comunidade, denominado sensus communis, com a faculdade de julgar reflexiva, isto é, legitimar a universalidade do juízo de gosto através da ideia de sensus communis. O sentido de comunidade é, primeiramente, pensado segundo um sensus communis logicus e as suas máximas, quais sejam: pensar por si mesmo, pensar no lugar dos demais e pensar em concordância consigo próprio. Não se trata da faculdade de conhecer, mas, de um modo de pensar para além das condições subjetivas individuais, chegando a um “ponto de vista universal (que ele só pode estabelecer colocando-se no ponto de vista dos outros)” (KU, AA 05: 295). Tais máximas do entendimento humano estão associadas ao sistema kantiano e à sua primazia de moralidade. A primeira máxima, pensar por si mesmo, é o resultado da atitude corajosa de fazer uso de seu próprio entendimento. A segunda, pensar no lugar de todos os demais, é a ampliação de pensar por si mesmo a uma comunicabilidade com todos os demais. A segunda máxima mostra uma afinidade do sensus communis logicus com o estético, pois, pensar no lugar de todos os demais também significa pensar segundo uma comunicabilidade universal, a partir de uma subjetividade, característica do juízo de gosto, que julga subjetivamente e, ao mesmo tempo, de forma universal, segundo um sentimento estético, tendo como ponto de referência um sensus communis. O sensus communis aestheticus, segundo um sentido de comunidade do gosto, aparece na terceira Crítica como uma tentativa de fundamentação da universalidade e necessidade do juízo de gosto, construindo, assim, uma comunidade de comunicabilidade universal. A universalidade do juízo de gosto, por sua vez, busca resolver o problema do abismo intransponível entre natureza e liberdade, exposto por Kant nas Introduções do livro. Entre a natureza e a liberdade não há passagem possível, “como se se tratasse de outros tantos mundos diferentes, em que o primeiro não pode ter qualquer influência no segundo” (KU, AA 05: 176). No entanto, a argumentação que tenta legitimar uma comunidade de seres humanos sensíveis e racionais através de um sensus communis esbarra nos limites anteriormente traçados pelo projeto-crítico transcendental, pois a fundamentação de um senso comum intersubjetivo não pode ser metafísica, empírica ou psicológica.
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