Linhas de fuga e afetos de resistência: cartografia da subjetividade surda na educação inclusiva
DOI:
https://doi.org/10.18764/2178-2229v33n2e26353Palavras-chave:
educação de surdos, cartografia subjetiva, violência de sujeiçãoResumo
Este artigo, fundamentado em uma tese de doutorado da Universidade Federal de São Carlos, investiga os desafios da educação inclusiva e as violências de sujeição que emergem da lógica normativa de classificação dos corpos surdos e de seus afetos. Em contrafluxo, corpos insurgem, traçando resistências por meio de seus afectos. A pesquisa teve como objetivo cartografar práticas de (não) violência na educação inclusiva, identificando as linhas molares, moleculares e de fuga que produzem marcas subjetivas no ethos surdo. Realizada em uma escola de Ensino Médio no interior de São Paulo, adotou-se a cartografia como método para problematizar as práticas de subjetivação surda nas relações de saber e poder escolares. Com base nos aportes de Foucault, Deleuze e Guattari, foram mapeadas quatro linhas molares (violência linguística, espacial, afetiva e simbólico-religiosa) e quatro linhas moleculares (não-violência do encontro, do ser queer, do ser umbandista e da surdez outra). Os resultados indicam que a inclusão frequentemente reforça padrões ouvintes, mas evidenciam a potência das linhas de fuga na afirmação das singularidades e na criação de práticas éticas que resistem às violências de sujeição. A surdez se manifesta como um modo de ser dinâmico e irrepetível, contrapondo-se às semioses que sustentam violências normativas. A pesquisa contribui ao campo da educação ao destacar as tensões entre sujeição e resistência na constituição subjetiva surda, reafirmando a urgência de práticas que considerem a diferença e promovam a ética como criação coletiva, possibilitando subjetivações mais plurais.
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