RELATO: imparcialidade ou censura?

2022-07-04

Prezada comunidade universitária!

 

Neste sábado, 02/06/2022, 17 horas, tive o prazer de participar da 18ª edição da Feira do Livro em Tramandaí/RS.

 

Primeiramente gostaria de agradecer pelo convite e pela recepção da Ananda, bibliotecária do Campus do Litoral Norte da UFRGS.

 

Todavia, gostaria de realizar um breve relato da experiência, na tentativa de refletir sobre a forma como foi organizada a atividade cultural que poderia ser enquadrada como extensão universitária.

 

O tema escolhido foi: PRAZER E DOR NA ATIVIDADE DOCENTE.

 

Ao ser convidado a falar constatei a ausência de público enquanto os organizadores da feira estavam desmontando os stands e equipamentos.Minha intervenção feita a Ananda foi clara: se não houver público, não tem encontro.

 

Solicitei a Ananda que falasse ao microfone e chamasse o público para o encontro, que tinha sido previamente agendado comigo.

 

Ananda me informou, em um primeiro momento, sobre a divulgação prévia nas redes sociais, pois não podemos divulgar as atividades da UFRGS Litoral na Feira do Livro uma vez que fomos orientados a tirar os perfis institucionais temporariamente do ar no período eleitoral (2/7 a 30/10).

 

Eu não entendi e não tenho a mesma interpretação legal desta portaria.

 

Compreendo que devido ao dever de imparcialidade que todas instituições públicas devem ter é vedada a divulgação e propaganda eleitoral.

 

No entanto, atividades culturais, de extensão e científicas são vedadas a divulgação?

 

Isto não faz sentido para mim. Fere a liberdade de expressão.

 

Uma vez que o conceito de Ciência que temos desde Descartes e Husserl deve ser sempre a busca e compromisso constante por uma atividade não ideológica, cética e metódica, mas antes tudo deve ser apresentada com suspensão de juízo.

 

No entanto, em segundo momento, Ananda falou ao microfone e anunciou a atividade, mesmo com os stands e equipamentos sendo desmontados.

 

Eu vim de Porto Alegre, voluntariamente, com meus próprios recursos, trouxe uma caixa de livros de Literatura, Psicanálise e Filosofia e alguns publicados pela Academia de Letras de São Paulo, na qual fiz parte como correspondente ocupando a cadeira Oswald de Andrade.  

 

Sinceramente me senti constrangido, pois meu esforço era que a Universidade em conjunto com os organizadores da Feira, divulgasse a atividade e assim pudéssemos criar um espaço de diálogo com professores, alunos do município e a Universidade.

 

Ironicamente, na Feira estava sendo distribuído uma edição do Jornal ABC dos dias 2 e 3 de julho do corrente ano.

 

Nele tem uma matéria de 2 páginas, argumentando e informando de que está havendo um apagão de professores do ensino médio e básico, em especial no Litoral Norte, principalmente professores de português, matemática e exatas. Inclusive falando da necessidade da criação de cursos interdisciplinares em Ciências Naturais para suprir tal demanda.

 

E porque faltam professores? Segundo a matéria são vários os fatores: a) Envelhecimento dos professores; b) Problemas sérios na formação e principalmente c) FALTA DE RECONHECIMENTO SOCIAL DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA E MÉDIA.

 

Reconhecimento não se mede apenas pelo caráter econômico, mas também por palavras e sentimentos de seus colegas, administração, gestores, etc. de que seu trabalho está sendo bem feito, que pode se expressar através de um jargão muito pronunciado pelos norte-americanos: Good Job!

 

O não reconhecimento do esforço empreendido pela atividade docente é a principal origem do sofrimento psíquico na Educação. E como podemos diminuir este sofrimento? Dando sentido ao trabalho docente realizado pelos  professores. Divulgando seu trabalho em nossa comunidade acadêmica, para que professores e discentes se façam presentes nas atividades realizadas, ou seja, dialogar e criar espaços para o pleno exercício da liberdade de consciência.

 

Para minha surpresa, a Secretária de Educação de Tramandaí se aproxima e se senta. Estava acompanhada por seus pais e mais 10 pessoas. Por fim, acabamos por realizar a atividade que foi muito prazerosa e satisfatória.

 

O que começou com o constrangimento terminou com um espaço de diálogo criado entre a Secretária de Educação e os envolvidos das atividades que tinha sido proposta inicialmente.

 

Lembro: sem público, não há evento. Para que haja diálogo, a comunidade, acadêmica ou não, precisa estar disposta ao diálogo.

 

Afinal uma das características da modernidade, não podemos esquecer que estamos completando 100 anos do movimento artístico e literário brasileiro, é a busca pelo reconhecimento individual e social. 

 

O Homem moderno se realiza através de seu trabalho, é espiritual, como diria Hegel.

 

Pergunto: qual o propósito de que  atividades culturais, de extensão e científicas serem vedadas e divulgadas no período eleitoral?

 

Grato pela atenção,  prof. Wellington