Como o Estado criou uma bolha no ensino superior dos EUA e o que isso tem a ver com o Brasil!

2022-06-09

Estudantes e pais frustrados enfrentam as perguntas que passam ao largo das soluções fáceis: um Ensino superior cada vez mais caro, enviesado e sem garantias de retorno financeiro ainda vale a pena? Se o montante das dívidas não tende a diminuir, quem pagará as próximas? Aos brasileiros, cabe também o questionamento: o que a crise do financiamento estudantil americano tem a ensinar sobre o futuro da Educação no país?

A partir de 2010, o governo americano tornou-se o único credor dos empréstimos estudantis, executando, nas palavras da ex-secretária de educação do governo Donald Trump, Betsy DeVos, uma “aquisição federal completa do sistema”.

“A Secretaria de Educação passou a ser responsável pela maior carteira de empréstimos diretos de todo o governo federal. Os empréstimos estudantis federais são a segunda maior fonte de dívida do consumidor nos Estados Unidos, atrás apenas da dívida hipotecária. Os americanos contraem mais dívidas estudantis do que cartões de crédito ou empréstimos para carros. Do dia para a noite, o departamento se tornou, em essência, um dos maiores bancos do país”, escreve DeVos, em seu novo livro “Hostages No More” (“Reféns Nunca Mais”).  Finalmente, em março de 2020, no início da crise do coronavírus, as dívidas estudantis com o governo federal chegaram ao fatídico valor de 1,6 trilhão de dólares. De acordo com dados do Federal Reserve, os 40% mais bem remunerados entre as famílias devedores respondem por quase 60% do total da dívida pendente dos empréstimos estudantis. Mais da metade do montante vem de famílias com pós-graduação, que representam apenas 14% do total de famílias americanas.

“A superprodução da elite geralmente leva a mais competição intra-elite que gradualmente mina o espírito de cooperação, seguido por polarização ideológica e fragmentação da classe política” . Qualquer relação com o cenário político contemporâneo, portanto, não é mera coincidência - nem, tampouco com o cenário brasileiro, que há anos forma doutores para o desemprego, seja através de universidades públicas sucateadas e sustentadas às custas dos mais pobres ou programas de financiamento que têm tudo para acabar como nos Estados Unidos. A solução, contudo, tampouco passa por uma completa deslegitimação do ensino superior.  Em vez de tentar reformá-las, é melhor construir ao redor delas, como a nova Universidade de Austin  e criar credenciais alternativas, como substituir a métrica dos diplomas por capacidade de aprendizado”. “Além disso, o financiamento do governo deve mudar drasticamente de faculdades e universidades de quatro anos para faculdades técnicas de dois anos”. Trata-se de uma reforma urgente, de cujo sucesso depende, em muito, a prosperidade das próximas gerações.

Autora: Maria Clara Vieira - 05/06/2022