Entre o Cahier e o samba: Aimé Césaire como interdiscurso na construção da identidade negra no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.18764/1984-6169v26e28080Palavras-chave:
análise de discurso, Identidade, música, História, anticolonialResumo
Este artigo analisa a canção Identidade, de Jorge Aragão (1992), à luz da Análise de Discurso de vertente pecheutiana, tomando-a como materialidade discursiva que tematiza o racismo cotidiano, a segregação velada e a resistência da população negra no Brasil. Parte-se da compreensão de que o discurso produz efeitos de sentido atravessados pela ideologia, pelo inconsciente e pela memória discursiva, inscrevendo-se em formações discursivas que autorizam e interditam dizeres. No contexto brasileiro, o samba é compreendido como espaço privilegiado de elaboração crítica da realidade social, funcionando historicamente como lugar de memória, denúncia e afirmação identitária. A identidade, neste estudo, é concebida não como essência fixa, mas como construção histórica marcada por relações de poder, experiências de violência e processos contínuos de resistência. Nesse sentido, articula-se a canção de Aragão ao pensamento anticolonial de Aimé Césaire, especialmente à obra Cahier d’un retour au pays natal, entendida como gesto simbólico e político de recusa da assimilação colonial e de recomposição identitária. Argumenta-se que Identidade atualiza, no cotidiano urbano brasileiro, o gesto de retorno simbólico presente no Cahier, reinscrevendo no espaço do samba a crítica à negação da identidade negra e afirmando a memória histórica como forma de resistência política.
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